Conferências

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Prof. Dr. Rodrigo Seixas (IL-UFBA)

Conferência de abertura A retórica do inimigo absoluto: prolegômenos para uma gramática lógico-argumentativa do extremismo político

Resumo

Nas últimas décadas, a ascensão de discursos extremistas em diferentes contextos políticos tem suscitado debates sobre os limites da deliberação democrática e consensualista, da convivência plural, da legitimidade do dissenso (Laclau, 2013; Mouffe, 2015) e do nível de participação popular e envolvimento com a política. Ora, mais do que um conjunto específico de posições ideológicas, o extremismo pode ser compreendido como uma forma particular de construção discursiva da realidade, caracterizada pela produção de antagonismos radicais e pela transformação do adversário político em inimigo absoluto (em uma releitura feita por Mouffe da perspectiva de Schmidt), o que se observa como a configuração de um estado de pós-política (Mouffe, 2015; Castro Rocha, 2024) e, possivelmente, o sintoma inicial de uma era de hiperpolítica (Jäger, 2026). Partindo dessa perspectiva, esta conferência propõe uma reflexão sobre as regularidades lógico-argumentativas que estruturam alguns discursos políticos extremistas contemporâneos (em eventos como o 8 de Janeiro e o conflito Israel x Palestina) e tem como objetivo central identificar mecanismos retóricos e argumentativos responsáveis pela construção de fronteiras simbólicas rígidas entre grupos sociais e políticos, bem como os processos de deslegitimação do contraditório, de moralização dos conflitos e de naturalização de soluções excepcionais (Angenot, 2008; Seixas, 2019; Seixas e Fontenelle, 2025). A tese a ser sustentada é, portanto, a de que o extremismo não se define exclusivamente pelo conteúdo das posições defendidas, mas pelas lógicas argumentativas que sustentam a exclusão do outro como interlocutor legítimo, o que torna o discurso extremista uma forma de cognição e racionalidade políticas específicas, cujos efeitos incidem diretamente sobre as condições de possibilidade da deliberação democrática e da vida pública em sociedades pretensamente pluralistas.
Paolo Demuru - Editora Elefante

Prof. Dr. Paolo Demuru (PPGL-Mackenzie)

Conferência 02 Políticas do futuro: visões e conflitos de mundo na contemporaneidade

Resumo

Esta conferência examina as visões concorrentes do futuro no discurso político contemporâneo. Mais especificamente, concentra-se nos modos pelos quais o futuro é construído tematicamente e representado figurativamente por Donald Trump, de um lado, e por Zohran Mamdani, de outro. Ao colocar a semiótica estrutural em diálogo com a semiótica da cultura, busca-se mostrar que esse conflito narrativo se fundamenta na tensão entre dois modelos distintos de construção de mundo e de futuridade. O discurso de Trump pode ser descrito como apocalíptico, milenarista e marcado pelo imaginário hollywoodiano. Ele o constrói simultaneamente como super-herói, messias e salvador da nação, capaz de projetar a humanidade para além da degeneração e do caos do presente. Assim como outras figuras proeminentes da extrema direita — entre elas Elon Musk, Nick Fuentes e Tucker Carlson —, Trump dissemina na esfera pública imagens de um mundo para além do mundo que conhecemos: aponta para terras inexploradas e outros planetas, e faz circular autorretratos sob a forma de Superman, Batman ou de um Cavaleiro do Apocalipse. Em contraste, Mamdani produz representações que colocam em primeiro plano as formas plásticas e figurativas da vida cotidiana, do mundo material e da cultura popular: comida de rua nova-iorquina, letreiros de bodegas, ônibus, metrô e creches espalhadas pela metrópole norte-americana. O que emerge dessa comparação é um verdadeiro choque de imaginários: contra o futurismo apocalíptico de Trump, Mamdani articula uma política de realismo utópico, fundada na confiança e na crença em outro mundo que não surge da aniquilação do presente, mas de sua reinvenção.
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Prof. Dr. Argus Romero (FAALC-UFMS)

Conferência 03 Paz, guerra e genocídio: por uma tipologia argumentativo-discursiva da relação entre retórica e violência

Resumo

Nos estudos retóricos, é comum opor a retórica à violência, modo pelo qual diferencia-se o poder da palavra do poder da força (Piris & Grácio, 2023). Não obstante, essa oposição parece não dar conta do atravessamento entre mythos e logos, palavra e violência, força e poder em discursos extremistas, seja na política interna, seja na política externa. É preciso, portanto, se perguntar sobre como persuadir o outro a cometer atos violentos. Tendo isso por pressuposto, na presente conferência, temos por objetivo avaliar as relações entre esses conceitos, partindo da Nova Retórica de Perelman & Olbrechts-Tyteca (2005), da Argumentação no Discurso de Amossy (2007) e da Proposta Integradora da Argumentação de Gonçalves-Segundo (2024) para, em seguida, dialogar com os estudos da violência, do mito, da paz e da guerra (Arendt, 2018; Bobbio, 2003; Carrizo, 2023; Ehrenreich, 1997; Lenoir, 2024; Malinowski, 2022; Vernant, 1990). Como corpus, avaliaremos enunciados relacionados à legitimação, justificação e execução das guerras na Palestina e no Irã em 2026. Nesse intuito, a conferência divide-se em três momentos: no primeiro, discutiremos o problema da violência em relação à condição humana; no segundo, analisaremos a relação entre retórica, política e guerra na Grécia Clássica; no terceiro, apresentaremos a proposta de trilogia conceitual retórica da paz, retórica da guerra e retórica genocida (Morais, 2025; 2026, no prelo).
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Prof. Dr. Adrian Pablo Fanjul (DLM-USP)

Mesa-redonda de encerramento O revisionismo ideológico sobre as ditaduras militares no Brasil e na Argentina atuais: um jogo de forças no discurso.

Resumo

A denominação “transição democrática” se consolidou para categorizar os processos políticos de saída de regimes ditatoriais nas últimas décadas do século XX, principalmente na América Latina, mas com extensão do termo aos casos da Espanha, de Portugal, e inclusive ao final do apartheid sul-africano. Consideramos que, no plano do discurso, as transições se caracterizaram pela consolidação de determinados pré-construídos, que, com o advento e auge das extremas direitas, começam a perder hegemonia em um processo ainda aberto. Particularmente, em torno dos crimes dos agentes do terrorismo de Estado, os pressupostos de necessidade de responsabilização entram em um jogo de forças com tendências de revisionismo ideológico que disputam a construção desses crimes como objeto de discurso.

Brasil e Argentina são dois países da região em que a justiça de transição teve desenvolvimentos muito diferentes, e, portanto, que receberão as tendências negacionistas e/ou revisionistas a partir de condições de produção discursiva díspares. Exporemos e compararemos, nesta apresentação, peças discursivas dos dois países que têm em comum serem produzidas com motivo dos aniversários dos golpes de Estado de 1964 (Brasil) e de 1976 (Argentina). Sustentamos que a contestação que é praticada nessas peças é, ainda, subordinada aos pré-construídos dominantes nas transições. Focalizamos, na análise, as formas de generalização de pessoa, a interlocução posta em cena, a determinação nas denominações e os processos de reformulação polêmica.

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Profa. Dra. Renata Palumbo (DLCV-USP)

Mesa-redonda de encerramento Da negação ao negacionismo em rede: a construção da (des)confiança e suas implicações para o debate público e a tomada de decisão coletiva

Resumo

Da Retórica Clássica aos estudos da argumentação desenvolvidos posteriormente, a discussão sobre o papel das emoções na atividade argumentativa tem sido recorrente, assim como o reconhecimento de seus efeitos persuasivos, mesmo entre as posições mais divergentes quanto ao caráter de seu uso. Os apelos às emoções presentes nas Fake news merecem especial atenção, pois participam de dinâmicas discursivas coletivamente performatizadas em ambientes digitais, que atuam na produção e na desestabilização de relações de confiança por meio da circulação recorrente de “discursos da negatividade” (Charaudeau, 2024) sobre tópicos de interesse público que estão relacionados, direta ou indiretamente, a determinadas instituições e grupos sociais. Ainda mais, enquanto fenômeno performativo e relacional (Morato, 2019), as Fake news inserem-se em projetos argumentativos de diferentes amplitudes (Palumbo, Aquino, 2023). Nesse viés, o fenômeno do negacionismo, potencializado pela circulação de Fake news e, mais especificamente, da intitulada Fake science, constitui o tópico desta comunicação. O objetivo central é discutir a força argumentativa dessas práticas textuais-discursivas, especialmente em relação ao apelo que realizam a determinadas emoções, e discorrer sobre seus efeitos e implicações para o debate público, a desconfiança nas instituições e, consequentemente, os processos de tomada de decisão coletiva.